sexta-feira, 4 de abril de 2008

Dignidade Tardia


Olá! mais uma vez inquieto-me pensando em nosso lugar, nossa vida, nossos ascendentes. Isso mesmo. O leitor já se perguntou como era a vida em Poço de Uibaí, Região de Irecê, distante mais de 500 Km da Capital baiana, antes da década de 1980? Como estaria Hoje?

Pois bem, naquela época, não se conhecia o que era energia elétrica. A noite era iluminada por candeeiros, velas e, para os mais abastados, lâmpada a gás. E a geladeira? E a televisão? E o telefone? Meu Deus, como esse povo vivia? Caro amigo, é tão difícil responder. A gente prefere dizer apenas: vivia. A tecnologia está chegando e tomando conta. Ela nos torna dependentes, a ponto de esquecermos tudo o que se passou. O Poço possui a Salina, a Lagoa de Zé Vermelho, no lado poente-oeste (desse mesmo lado, ao pé da Serra, encontra-se o Gasta Sabão e a Bananeira, ambos com água doce). Possui um pequeno córrego denominado regrinha, que percorre os brejos, desaparecendo em alguns trechos, até chegar na propriedade de Betinho. Do outro lado (nascente), possui um riacho que brota atrás da antiga casa de farinha de Camerino, descendo pelo baixão do Velho Claro (lambedor) passando pela ponte de Maria Rosa, Baixão de Preto, Barragem do Clariou, entrando em território de Boca D’água). Estou Certo?
A nossa água doce fica a 02 Km, no pé da Serra (do gasta), cerca de 130 m acima do nível da rua. Gente, o acesso era apenas a pé ou de jumento. Água na torneira? Está brincando!... Pois é, nossos antecedentes viveram isso. E as mulheres que o digam. Dar à luz em Hospital. O quê? Era só parteira! Remédio? - Era do mato. Dentista! Era um Charlatão de nome Aristides, que passava no final de semana arrancando dentes, ou mesmo o Uelton de Raulão, fazendo o mesmo. As pessoas desenvolviam atividades agrícolas no Pé do Aldo, Lievino, Baixa dos Liodoro, Boi Carreiro, Maria Gomes, etc. Muitas indivíduos adoeciam e morriam sem se saber qual teria sido o mal. A mortalidade infantil era algo considerado normal. Dizia-se "foi do coração", quando a causa da morte não era conhecida. O estado de miséria em que viveram nossos pais, avós era tão pesado que o sonho destes era ver seus filhos saírem dali. Era terem uma vida diferente, ir a São Paulo seria a solução.
Amigos Leitores, a gente se emonciona ao escrever estas coisas. Às vezes a gente perde o foco, erra o português. De certa forma, revivendo aqueles momentos difíceis.

Pretendo algum dia desenvolver os tópicos acima, mas, por ora, vou tocar novamente em uma questão econômica. Como uma política de fixação à terra e de assistência e previdência social, a aposentadoria do trabalhador rural veio trazer um pouco de dignidade a nossa gente.

O problema é que essas pessoas sofreram durante 55 ou 60 anos. Tiveram uma vida paupérrima. Os que conseguem chegar a esta idade, são os que podem usufruir um pouco mais dos benefícios desse dinheirinho, usando-o da melhor forma: para gastar com o que é necessário e não para acumular. O que ocorre é que estas pessoas só podem adquirir certos móveis, fazer uma viagem ir ao médico, somente quando entram na terceira idade, às vezes por pouco tempo ainda vivo. Passam uma vida toda desempenhando suas atividades sem quaisquer recursos, com pouca qualidade de vida. Aqueles que tem "o cartão", antes refugados, agora são cobiçados pelos comerciantes, bons pagadores, a nova "elite" rural.
Os programas do Governo Federal ajudam, mas o nosso povo merece ter uma vida melhor.
Sim, e tanto blá, blá blá é para quê? Como sempre, o problema parece difícil de resolver, mas talvez o leitor me dê razão, na sugestão que vou dar.
Você tem parente lá?
Onde está Você agora? Buscando a sorte? Trabalhando? Então vamos ver. Se tens um irmão ou primo em idade escolar, incentive-o a estudar. Ele trabalha o dia todo? Sugira que ele tire um tempinho à noite para ler. Veja se é possível trabalhar apenas um turno e, no outro, freqüentar a aula. A educação pode antecipar essa dignidade que proponho, pois através do conhecimento se consegue ir atrás das melhores soluções e melhores caminhos. Saiba que nem sempre o melhor caminho é abandonar o meio rural. Temos de buscar uma forma de oferecer oportunidades e recursos para nosso povo, enquanto jovens, para que o futuro possa trazer melhorias para nossos descendentes.

Como os seus parentes tratam o meio ambiente? Opa! se você consegue ler este texto, com certeza já ouviu falar em aquecimento global, poluição, etc. Ninguém melhor que você para sugerir a eles que evitem poluir ou desperdiçar nossas águas, jogando lixo em locais impróprios, queimando a mata, etc. E mais, é necessário exigir do poder público que faça a coleta de lixo. Incentive-o a plantar uma árvore. Ela vai dar uma boa sombra, o que vai ajudar a equilibrar a temperatura e tornar o ar mais agradável.

Venha cá, seja sincero! Você sabe quando seus pais ou avós foram ao médico? Quando fizeram exames de sangue, fezes, urina? Quando mediram a pressão arterial? Todos sabem que esses serviços ainda são precários no nosso município, mas é necessário que se crie demanda para podermos cobrar das autoridades.
Sim, e aquele seu tio que estava com colesterol alto. Você está incentivando-o a fazer caminhadas? E o seu sobrinho? Tem conversado com ele. Alerte-o sobre as drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. E o seu vizinho, ainda anda impaciente e insatisfeito com a vida, saiba que ela só está esperando uma visita sua para melhorar o dia. Pois é meu amigo, a gente viaja, quando começa a falar da gente, do nosso povo, do nosso lugar.
Enquanto isso, vamos vivendo, agindo e vendo a vida passar. Pois é isso que vale a pena.

Um grande abraço.

LEIA: AGRICULTORES DE UIBAÍ PEDEM SOCORRO

Um comentário:

Rafael Italo Lima de Almeida disse...

Fabionildo, se, por um lado, a dignidade do povo de sua terra está chegando tardia, por outro, minha vontade de conhece-la chegou bem de pressa depois de ter lido seu texto. Não sei se a água do Gasta Sabão e da Bananeira são realmente doces, mas o encantamento em suas palavras para descreve-las me deixaram suficientemente curioso para ir lá prova-las. É um privilégio sem tamanho trabalhar com você e perceber que muitas das sugestões lançadas no texto para tornar o mundo melhor são aplicadas no seu dia-a-dia. Um grande abraço